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Blog da Margarida

Blog da Margarida

31
Mar17

Deixem a minha campainha sossegada!

Como já vos disse aqui, não tenho internet em casa o que me limita a actualização do blogue quando não estou a trabalhar. Ora, a dor de dentes que vos falava no post anterior e que obrigou a enfrascar-me em medicamentos, atirou comigo para casa quase a semana toda. Podia ter tido uns dias sossegados, podia ter aproveitado para dormir e descansar (coisas que me fizessem esquecer a dor e o desconforto gástrico) se não fossem aqueles senhores de determinada religião que tocam as campainhas.

Porquê, senhores, porquê??? Estamos no ano de 2017, acham mesmo que ainda há necessidade de andar a bater de porta a porta para espalhar a palavra? Eu não tenho Internet em casa, mas olhem que sou uma rapariga despachada, e sei procurar as minhas informações quando preciso.

Não tenho absolutamente nada contra esta religião ou outra qualquer. Desde pequena que tenho especial interesse por questões religiosas, ainda que sempre me tenha conhecido como ateia - baptizada e com primeira comunhão feita por obrigação. Sempre me fascinou o que leva tanta a gente a acreditar em algo que não é palpável, que não se vê nem se pode comprovar - acho realmente incrível. A forma como alguém com um amigo imaginável é tido como maluco, mas se milhares de pessoas tiverem esse mesmo amigo, formam uma religião.

Vivemos numa sociedade que ridiculariza ideias como extra-terrestres, unicórnios, ou criaturas mais exóticas, mas que acredita indubitavelmente que existe um espírito de alguém que viveu à muito tempo a controlar o mundo. Isto dito assim soa um bocado estranho, não? Mas a mim parece-me incrível ao mesmo tempo. Vivemos num planeta onde não descobrimos ainda nem metade do que aqui habita, já para nem falar na galáxia interminável; não havendo provas da existência de extra-terrestres ainda, parece-me mais provável a existência destes (e não na sua sua forma de homenzinhos verdes, mas simplesmente vida - inteligente ou não - noutro lugar).

Ora, isto é apenas a minha ideia (achar que nenhuma religião ME faz sentido), mas não ando de porta a porta a dizer isto às pessoas, pois não? Posso discutir isso com família ou amigos, mas acho um tema demasiado privado para discutir com desconhecidos, muito menos bater à porta desses desconhecidos com o único objectivo de falar sobre o assunto. Toda a gente conhece as principais religiões presentes em Portugal, e havendo curiosidade, tenho a certeza que sabem também onde se dirigir para tirar dúvidas.

A sério, mas mesmo a sério, não há necessidades de tocar às campainhas ao fim de semana às 9h da manhã (ou a qualquer hora do dia, todos os dias), nesta fase mais perto da Páscoa. Como eu não devo ser a única vítima, já vi algumas pessoas aqui da zona a colar papeis na caixa de correio equivalentes a "publicidade aqui não", mas a pedir para não tocarem a campainha para fins religiosos. Penso nas pessoas que estão em casa com bebés ou idosos a dormir, pessoas que trabalham de noite como polícias e enfermeiros, pessoas de mobilidade reduzida que demoram imenso a chegar à porta, a fazerem o esforço de se deslocarem - não para receber um ente querido, não para aceitar um encomendada por si pedida - mas para ouvirem falar de uma coisa que não lhes interessa minimamente. Não sei quem decide a tipo de política para publicidade ou expansão, mas esta coisa tipo stalker não me parece muito boa ideia, digo eu....

28
Mar17

Profissões ingratas

Falei aqui sobre as minhas idas ao dentistas e a descoberta de um novo médico. Pois bem, lá fui a primeira vez e gostei muito. Simpatia, ética, rapidez. O trauma foi totalmente inexistente, pelo que marquei nova consulta para a semana seguinte, e para a seguinte. Marquei também para o Bruno e tenho feito publicidade por quem vou encontrando.

Mas, há sempre um mas, os meus dentes não devem ter concordado comigo porque desde sábado ando a arrancar cabelos com a dor. Eu sei que é normal, que nada teve a ver com o trabalho do dentista (que foi impecável), mas fiquei com os tecidos todos inflamados. Não sou mariquinhas, aliás, sou até bastante resiliente no que diz respeito a dor física, mas quando não consigo controlar o choro, é porque a coisa está grave. Depois de um fim de semana desesperante, liguei para lá ontem e arranjaram-me consulta para hoje de manhã. A ver vamos.

Tenho-me enfrascado em medicamentos para as dores, antibióticos e anti-inflamatórios mas parece que nada ajuda: continuo com vontade de ser atingida acidentalmente por um pugilista, ou por um rinoceronte furioso, ou por um comboio. 

Isto fez-me pensar como o trabalho do dentista chega a ser ingrato: tem uma fama terrível, toda a gente tem medo de lá ir, geralmente são procurados quando o caso está extremo, digamos que grande parte dos seus cliente não fazem o que eles mandam mas no final acabam sempre por lá voltar quando já estão cheios de dores. E claro que eles podiam reclamar, dizer "eu avisei!" mas recebem toda a gente com a maior das simpatias e tratam os doentes da forma mais suave possível. 

Mas isso não acontece com tantos outros trabalhos? Tenho um amigo que é auditor bancário e está sempre a dizer que não consegue fazer amizades no trabalho porque toda a gente o odeia já que o seu trabalho é apontar os erros do empresa. Amigos enfermeiros que deixam a família aos fins de semana, natais e aniversários para ouvirem desaforos de quem está furioso numa sala de espera, como se tudo fosse culpa deles. Veterinários que tentam fazer o melhor que podem e sabem, e são acusados injustamente de serem uns ladrões (porque infelizmente não há um sistema nacional de saúde para animais, e os veterinários tem mesmo de pagar as contas deles como toda a gente). Professores acusados de serem maus profissionais quando leccionam turmas de crianças birrentas e mal educadas, onde os pais acham mais importante pôr as crias na equitação e no futebol, do que ficar em casa a ajudar nas matérias mais complicadas. Designers que vem o seu estatuto reduzido ao ridículo porque toda a gente consegue fazer cartões de visita no Power Point e sites no WIX. E tantos outros exemplos, que fariam esta lista não ter fim! Que difícil é escolher uma profissão recompensadora nos dias de hoje.

27
Mar17

Resumo de um fim de semana #3

Foram quilómetros de caminhadas, sempre na companhia da Camilinha. O sol é tão raro aparecer por estes lados, que quando decide dar um ar de sua graça, largamos tudo e vamos para a rua "fazer fotossíntese". 

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O fim de semana foi tão bom, com tanta absorção de vitamina D que para a próxima semana já estávamos a planear um fim de semana fora: Bruges, conhecido como Veneza da Bélgica, não fica longe de nossa casa e dizem ser uma cidade lindíssima (dois dias devem ser suficientes para a visita). Claro que a meteorologia já nos trocou as voltas e a previsão indica chuva e trovoada, e obviamente que os planos nessa situação serão mais mantas, chá, bolos e filmes.. A ver vamos!

24
Mar17

O meu lado materialista

Preciso de um relógio, e ao contrário de tudo o resto, para relógios ponho a minha forretice de parte e compro algo que gosto mesmo. Acho que são bons investimentos, duram imensos anos, chegam a passar de geração em geração. Tenho apenas dois bons relógios (vá, ponho a forretice de parte mas também não perco a cabeça!) mas gosto mesmo muito deles, e ainda que os anos passem estão sempre actuais.

O meu problema neste momento é que boas marcas de relógios tem tendência a fazer relógios com pulseiras em metal, e eu queria um mais feminino e mais fino, com pulseira em pele. Dos que encontrei, foram estes que me ficaram na cabeça.

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Agradeço opiniões.

23
Mar17

O drama das passwords

Costumo usar as mesmas passwords para quase tudo com uma minha mini lista de códigos, e tenho um predefinido para cada situação: 4 números, 8 números, ou mais de 5 dígitos com letras e números. 

O problema começa quando me pedem uma pass com letras maiúsculas e minúsculas, números e sinais de pontuação: Senhores das Passwords, ninguém vai memorizar aquilo! Da próxima vez que quiser lá entrar vou ter de fazer recuperação de pass, e numa das tentativas vai-me aparecer o erro de não poder usar um código antigo! Fico pi-ursa quando isto me acontece.

Óbvio que percebo uma segurança apertada para determinadas coisas como em acessos bancários, finanças, informações médicas ou outras questões extremamente privadas, porque a Internet não é um sítio fechado e toda a gente conseguirá com maior ou menor dificuldade ter acesso a tudo que aqui colocamos.

Mas daí até me pedirem uma pass toda maluca com perguntas de segurança numa marcação online para levar o carro à inspecção parece-me assim um bocadinho exagerado, digo eu... Afinal seria uma tragédia se alguém conseguisse entrar na minha conta e roubar-me aquela hora na agenda, não é? Alguém pode querer tanto aquela hora que eu escolhi, que - qual hacker - perderá uns bons minutos da sua vida a tentar entrar na minha conta, isto supondo que não haverá horas disponíveis antes nem depois...

É um filme todos os anos porque já tenho lá conta mas nunca me lembro da pass, e também já não me lembro das perguntas de segurança. Já apontei em papeis que perdi, já gravei em telemóveis que avariaram, nada resulta; acabo quase sempre por criar outra conta com outro email. E supondo que toda a gente passa por este processo, fará algum sentido que algum hacker perca o seu tempo a roubar a senha de outra pessoa só para ficar com uma hora especifica que ela escolheu? Como diria a Pipoca Mais Doce, "Parem a internet que eu quero sair"...

23
Mar17

A febre do Starbucks

Das coisas que mais gosto de fazer quando viajo é parar num café/esplanada, beber um capuccino e ficar ali a apreciar um bocadinho a dinâmica de cada cidade: ver como as pessoas se comportam, como me movem, como se vestem, como se relacionam, se sorriem mais ou menos.

Como andamos sempre muito a pé nas viagens que fazemos, isso ajuda-nos a descansar em qualquer canto onde haja um café com um ar simpático. Ora, isto fazia com que nunca tivéssemos entrado num Starbucks, porque nunca tínhamos encontrado nenhum perto e também não acho que tenha sentido desviar um trajecto por causa de um café. 

Entretanto abriu um Starbuck aqui no aeroporto, e como passado poucas semanas íamos viajar, fomos mais cedo para experimentar. Pedimos um capuccino, um cupcake, uma fatia de cheesecake e uma água porque não tinham Coca-cola, e por isto apresentaram-me uma conta de 22€.

Bom, eu conheço bem o custo de vida aqui, sei também que é uma marca conhecida e que só vai lá quem quer, mas a sério que as pessoas pagam uma fortuna por aquilo?? Não me estou a queixar só pelo preço, porque se comparar por exemplo com o Hard Rock (que não é propriamente ao preço do McDonalds), não tenho nada a dizer: a comida é deliciosa e o atendimento irrepreensível. Já na famosa cafetaria acho que nem vi os dentes dos empregados, e quanto à qualidade, acho que se encontram produtos superior em qualquer canto. 

Uns meses mais tarde, em Manchester, decidimos voltar a experimentar, não fosse o caso do Luxemburgo ser pontual. Afinal não, acho que é mesmo política da empresa. 

Até entendo que as pessoas gostem de ir lá por ser moda, queiram tirar fotos com o famoso copo da marca, pela experiência "americanada" mas se procuram um bom café/capuccino sugiro que vão a outro lado.

 

PS: devo ser a única pessoas no mundo com esta opinião, tendo em conta a proliferação da marca. E não tenha nada contra os senhores, apenas acho que querendo manter aqueles preços, deveriam verificar também a qualidade. 

22
Mar17

Dias livres, mais ou menos

O problema de ter um dia livre é o tempo para estas experiências. Bom, se não fosse isto seria esvaziar e limpar armários, gavetões e gavetinhas, ou outra coisa qualquer que há sempre para fazer em casa. 

Desta vez lembrei-me da tarte merengada de limão que queria fazer há tanto tempo. Não ficou nada mal mas irei fazer uma adaptação para a próxima vez (em vez do merengue, vou pôr chantilli e cobrir com frutas porque aquele creme de ovos com limão estava a pedir mesmo isso).

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E esta foi totalmente inventada, de tal modo que nem nome tem. Aproveitei que tinha tempo e fiz duas versões: vegetariana/atum, e ficaram as duas ma-ra-vi-lho-sas.

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(molho: tomate, azeitonas verdes e pretas, espinafres, cenoura, sal, pimenta e ervas a gosto. No caso do atum, deixar refogar uns minutos no molho antes de servir).

 

Quem diria que algum dia eu ia perder umas horas na cozinha, sem ser por obrigação?

21
Mar17

Março, marçagão, de manhã Inverno e de tarde Verão

Sempre gostei deste mês, não que seja o meu preferido mas sempre lhe tive um carinho especial. É o primeiro mês que vem logo depois do Inverno, é o recomeço de um ciclo, é o renascer, é vida. As flores aparecem, os animais selvagens começam também a sair das suas tocas, as aves chegam das suas migrações.

Escolhemos este dia, exactamente há 4 anos atrás, para metermos a nossa vida em caixotes na mala do carro e virmos para o país que nos acolhe até hoje. Trouxe comigo todos os sonhos do mundo, todas as certezas, toda a vontade de fazer acontecer. 

Um novo ciclo, um ciclo tão complexo, com tantos acontecimentos e sentimentos à mistura, que ainda hoje não fui capaz de escrever o longo texto que me anda na cabeça há tanto tempo: A Emigração.

O inicio foi tão mas tão duro, que tentamos cá em casa nem falar do primeiro ano em que cá estivemos. Com o tempo as coisas foram melhorando, e ainda que a vida perfeita não exista, estamos numa situação que muito dificilmente conseguiríamos ter em Portugal.

Viver fora é conhecer outras culturas, trocar ideias, sair da zona de conforto e crescer. É ter uma vida mais despreocupada e mais desafogada, afinal é por isso que para cá vimos. É ter desafios uns atrás dos outros, sejam eles profissionais, pessoais, ou quotidianos como ir às finanças explicar que houve um erro nos vossos impostos numa língua que mal se domina. É nunca ter de pensar se temos dinheiro para cuidados de saúde.

É ver com os nossos olhos que há sociedades que funcionam melhor do que a nossa, e que isso é possível. É enraizar em nós de tal maneira o civismo aqui presente, chegando com vergonha a duvidar se conseguiríamos voltar a viver no nosso país. É ser recebido num país que não é o nosso e darem-nos as mesmas oportunidades que aos de cá. É atingir metas que nem sonhávamos ter a força para tentar.

Mas é também saber que ainda que cheguemos a ter nacionalidade nunca vamos ser tão de cá como eles. Que ainda que gostemos de estar CÁ preferíamos mil vezes estar LÁ, se pudéssemos ter as mesmas oportunidades (ou até aceitaríamos menos um bocadinho). É ser sempre estrangeira, é cada vez que tiramos uns dias de férias ouvir a pergunta "Vais a Portugal?". É a cada dificuldade aqui, pensar em voltar, mas depois de uns dias aí de férias perceber que afinal até temos saudades da nossa casa aqui.

É ser recebida aí como emigrante, e a cada ano que passa perceber que nos afastamos mais: porque a nossa cidade muda, os sítios que conhecíamos já fecharam e deram lugar a novos que não conhecemos, as músicas que nos chegam aqui são diferentes das que vos chegam aí. É estar sempre a reclamar de Portugal mas não admitir que nenhum estrangeiro nos diga que Portugal é menos que o melhor país do mundo. É adorar viajar e ter dinheiro para o fazer, mas receber as lágrimas nos olhos quando conduzimos em Milão só porque a calçada nos faz lembrar as ruas em Portugal. É não gozar com quem tem a bandeira/símbolo de Portugal no carro (e não, eu não tenho), porque ainda que em Portugal vejam isso como "tunning", acreditem que andar com esse símbolo por estas bandas é sinónimo de muita coragem e orgulho em ser quem somos.

"Março, marçagão, de manhã Inverno e de tarde Verão": um novo ciclo com vantagens e desvantagens, dependendo sempre do ponto de vista de quem as olha.

17
Mar17

As idas ao dentista...

Fui prendada com uns dentes de qualidade muito duvidosa, e por isso sempre tive bastantes problemas com eles. Trato bem deles, escovo e passo elixir mas mesmo assim são moços sensíveis e que se deixam afectar pela mínima carie que a eles se cole. 

Com se isto não bastasse, ainda são feios. São a coisa que menos gosto em mim, e ainda que toda a gente me diga que são bonitos e certinhos (isso são, de facto),têm manchas provocadas por desmineralizações (algo equivalente a isto mas em menor quantidade). Já fiz alguns tratamentos que ajudam a disfarçar mas as manchas voltam sempre. Também poderia tirar os meus dentes e pôr implantes mas não me foi aconselhado retirar dentes saudáveis com um pequeno pormenor estético que segundo outros mal se nota, para colocar dentes falsos (já para não falar da fortuna que custa, claro).

Muito cedo cheguei à conclusão que todos temos um calcanhar de Aquiles, e que não me restava nada mais do que aprender a viver com ele - nunca me passou pela cabeça travar um sorriso pela vergonha.

 

Nos primeiros três anos em que vivi no Luxemburgo, depois de ter ido a três dentistas diferentes e nenhum deles me ter agradado, fui adiando e adiando as consultas de rotina até que a semana passada comecei a sentir uma pequena dor e pensei "É desta, Ana Margarida! Tens mesmo de ir ao dentista!".

Mas ir ao médico não é nenhum prazer para mim e fujo deles o mais que posso (consigo contar pelos dedos das mãos as vezes que fui ao médico nos últimos 4 anos, e não é coisa que me orgulhe). Lá me vou amanhando em casa com mezinhas e coisas que tal para evitar as consultas por várias razões:

-Porque não tenho tempo para ir ao médico e é coisa para me atrapalhar a agenda toda;

-Porque detesto faltar ao trabalho;

-Porque evito ao máximo qualquer tipo de medicamento;

-Porque me vão passar exames de rotina, o que implica uma segunda ida ao médico para mostrar os exames.

 

Eu sei melhor do que ninguém que se não arranjarmos tempo para a saúde, vamos ter de arranjar tempo para a doença mas sou jovem, saudável e se me sinto bem, não vejo necessidade de passar a vida em consultas de rotina. Se fossemos uma vez por ano a cada especialidade médica para rotina, isso daria algo como uma a duas consultas por mês, não?

Vivendo aqui, tenho a tremenda sorte de ter um sistema nacional de saúde fantástico que cobre quase na totalidade as consultas pelos médico que nós escolhemos; ou seja, é como ir ao privado em Portugal e pagar uma quantia ínfima porque é um serviço comparticipado (dentista incluído). 

Mas os dentistas estão para mim como o ginecologista, tem de haver ali uma confiança imediata, uma simpatia de parte a parte, caso contrario é-me impossível. Falei então com um colega e perguntei se me aconselhava algum - dentista, e não ginecologista - ao que me responde que o dentista dele é fantástico! E sorte das sortes, é português! E melhor ainda, tem um consultório ao lado do meu trabalho e outro ao lado de minha casa! Isto quer dizer alguma coisa, não quer? É desta que arranjo um dentista ao nível do que tinha em Portugal.

16
Mar17

A racionalidade nos sonhos

A última vez que falei sobre o Mike neste blog, foi 10 meses depois dele ter partido quando fiz o post em que expliquei a sua morte. Ainda estava muito zangada na altura, e despejava toda a minha revolta nos criadores que criam cães sem fazer a mínima ideia do que estão a fazer, sem exames de saúde ou controlo algum. Hoje vejo que foi uma estupidez, que tanto valia vir de um mau criador, de um bom criador, de um canil ou da rua, porque isso nunca fez diferença para mim e não teria feito nada diferente - simplesmente precisava de culpar alguém. 

Quem chegou mais tarde ao blog, se pesquisar ali na barra direita pela palavra Mike, fica a conhecer o que foi o cão da minha vida, foi o meu grande companheiro numa fase bastante complicada, vivemos um para o outro, pesou em várias decisões que tomei até hoje: até o meu relatório final de curso teve o tema "Geriatria em animais de companhia: Principais patologias e o trabalho do Enfermeiro Veterinário", porque queria estar preparada para acompanhar o meu fiel companheiro quando a velhice chegasse. Aliás, a dedicatória do meu trabalho final da licenciatura foi esta:

 

"Dedicatória:

Este trabalho é dedicado ao meu cão, Mike. Por todo o apoio, companhia e incrível dedicação em todos os momentos. Espero estar a altura de retribuir tamanha amizade e lealdade.

 

Quando eu mais precisei de uma mão para segurar, o que se estendeu foi uma pata.

(Autor desconhecido)"

 

O Mike deu o seu lugar à Camila, que é a cadela mais amorosa do universo, a cadela perfeita para meio mundo mas que veio ocupar um lugar difícil de preencher, e que me levou demasiado tempo a fazer-me apaixonar por ela também, porque de uma forma estúpida e totalmente inconsciente eu estava à espera que ela fosse o Mike, com as mesmas reacções, com os mesmos gostos e as mesmas histórias. Não só não é parecida, como não podia ser mais diferente e veio também com a sua forma de ser, dar-me ensinamentos preciosos para a vida. 

Hoje, quase 4 anos depois, vejo como o Mike me mudou. Ele foi para mim um filho, e eu sei melhor do que ninguém que um cão não é um filho, que nunca se compara um cão a uma criança, que não se devem personificar os animais e blábláblá wiskas saquetas. Um grande foda-se para o politicamente correcto porque só eu sei o que senti - o Mike foi o meu primeiro filho, e a sua morte mudou-me até ao meu último recanto. 

Mudou a forma como me apego aos meus animais, e ainda que lhes tenha um amor que nem consigo descrever, hoje olho para todos eles como animais que são (ainda que parte fundamental da família) mas creio que nunca mais voltarei a cair na asneira de misturar amor de dona com sentimentos maternos. 

Deu-me a conhecer a fragilidade e a incerteza da vida, independentemente das nossas acções.

Acho que também levou com ele a pouca vontade que eu tinha de ter filhos, porque se perder um cão foi o Inferno que foi, em que só consegui recuperar com ajuda médica, acho que não tenho "arcabouço" suficiente para pôr um filho neste mundo horrível e perverso em que tudo pode acontecer.

Contudo, há uns dias atrás a minha chefe perdeu o seu cavalo que tinha a bela idade de 23 anos. Em forma de consolo, disse-lhe que a morte do meu cão foi o pior que me aconteceu na vida e que eu ultrapassei - ultrapassamos sempre. Contei-lhe como fiz tudo o que pude e tenho a consciência tranquila. Contei-lhe também como demos o último dia mais feliz de sempre ao Mike que incluiu os donos só para ele, passeios na praia e ir comer ao McDonald's (afinal não eram os hambúrgueres e as batatas fritas que o iam matar, não é?).Ele partiu feliz e hoje já só lhe recordo apenas as coisas boas e o agradecimento por ter feito parte da minha vida. Ela respondeu-me que (nós as duas) devíamos ser pessoas muito felizes, já que o pior que nos aconteceu na vida foi perder um animal. Eu sei que sim, e sou imensamente grata por isso.

Ainda assim, aquele cão mudou a minha vida, mudou-me a mim e de todas as mudanças que ele trouxe, a única que ainda hoje me incomoda é a incapacidade de sonhar. Foram tantas mas tantas as vezes que sonhei com ele, em que o sentia em casa, ou que sonhava que ele estava só perdido ou que tinha sido roubado e que ia voltar, que desenvolvi uma defesa natural: Não consigo sonhar com coisas irreais. Dentro dos meus sonhos, paro um momento para pensar e chego à conclusão que estou de facto a sonhar. Ou seja, se estou a sonhar que o Mike vai voltar, rápidamente me lembro que ele morreu e não vai voltar; se sonho que tenho filhos, ainda dentro do meu sonho percebo que aquilo não pode ser verdade então estou de facto a sonhar; se estou numa vida que não a minha, penso que nunca iria para lado nenhum sem o meu marido, então só poderei estar dentro de um sonho. Complicado, não? Tornei-me demasiado racional até para sonhar, e não sei se fico triste por isso, ou se por outro lado guardo com carinho esta marca que ele deixou em mim. 

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