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Blog da Margarida

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14
Dez17

Caramba, consegui!

Tinha pensado num post bonito e estruturado para o dia de ontem, mas tal não me foi possível.

Quem me segue há muito, muito tempo, sabe como o meu trabalho e vida profissional são importantes para mim. Tenho a impressão que já contei isto milhões de vezes, mas eu estava no primeiro ano de enfermagem quando decidi que devia desistir do curso que me tinha sido "imposto" e correr atrás dos meus sonhos. Em poucos meses percebi que não era aquilo que me ia fazer feliz até à idade da reforma e decidi ainda ia a tempo de tomar outro rumo - o meu rumo. 

Decidi mudar para um curso "mais fraco", que não tem (ainda!) peso nenhum na sociedade e que toda a gente diz ser apenas "mais um curso". Foi complicado fazer principalmente com que os meus "paitrocinadores" aceitassem esta mudança, mas lá no fundo, eles tinham-me como uma adolescente sensata, mais teimosa que uma mula, e que sempre soube bem aquilo que queria. 

Acabei por mudar para o meu curso (Enfermagem Veterinária), e logo nas férias grandes do primeiro ano arranjei trabalho numa clínica espectacular com uma mega variedade de casos clínicos em que tive oportunidade de experimentar várias valências da minha área: animais de companhia, animais exóticos e zoo. Gostei tanto que lá fiquei até acabar o último ano, e ainda que tivesse tido a oportunidade de agarrar logo ali um trabalho que adorava, que aquelas pessoas tenham ficado para sempre no meu coração e que as veja como "mestres", algo me disse que eu não iria ficar por ali. Acabei a minha licenciatura em Janeiro e em Março emigrei.

Cá cheguei cheia de sonhos e de vontade de trabalhar, mas rapidamente me foi demonstrado que o meu português e inglês não seriam suficientes para arranjar um trabalho na minha área, sendo que o meu curso nem é reconhecido cá. Ou desistia ali ou continuava a tentar.

Fui agarrando aquilo que consegui pouco a pouco: trabalhei nas limpezas, o qual foi o trabalho mais duro que já tive na minha vida mas que era fundamental para pagar as despesas. Foi duro fisicamente, mas ainda mais duro porque ninguém se digna a dar um boa tarde ou um bom dia a uma empregada de limpeza. Lembro-me de ficar com as lágrimas nos olhos por me sentir tão insignificante ao ponto de não merecer um simples cumprimento. Pensei tantas, mas tantas vezes em desistir, mas cada vez que eu achava que já não aguentava mais, lá vinha a vida com alguma surpresa para me dizer que ainda não era hora. 

Continuei na luta como desde o primeiro dia, aprendi dois idiomas novos e contra todos que diziam que eu não ia conseguir (por vezes, também eu própria), fui encontrando trabalhos melhores e outras portas foram-se abrindo. 

Ontem, quatro anos e meio depois de cá ter chegado, assinei o meu contrato de efectividade no Laboratório Nacional de Medicina Veterinária. Ontem assinei um contrato com a função pública num outro país que não o meu, e se poderia estar feliz por ter finalmente encontrado reconhecimento e estabilidade, a única coisa em que consigo pensar é que consegui.

Consegui. Consegui sozinha. Sem cunhas, nem conhecimentos porque o meu leque de conhecimentos neste país é mais do que reduzido. Consegui fazer parte dos 0,1% dos emigrantes que cá tem esta oportunidade. Consegui por mérito próprio chegar onde nunca sequer ambicionei estar. 

Eu sou a mesma pessoa que substituía rolos de papel higiénico e papel de secar mãos no shopping nas tardes de fim de semana, que trabalhou 16h por dia continuamente até desmaiar e ir para o hospital, que aproveitava cada bocadinho de conversa para aprender até as expressões mais simples numa língua nova. Nunca me irei esquecer disso, mas hoje estou verdadeiramente orgulhosa de mim. Caramba. 

 

PS: Por favor, façam o favor de dizer um simples "bom dia" às senhoras da limpeza. Acreditem que algo tão simples como isso pode transformar o dia de alguém. 

 

 

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