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Blog da Margarida

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25
Fev17

O amor ao primeiro carro

Quando tirei a carta os meus pais deram-me um carro mas passado três meses decidi que era altura de comprar o meu carro. Não foi preciso muita procura, nem muita escolha: eu queria um Smart, há muito tempo. Na altura trabalhava em part-time em estudos de mercado e fazia várias entrevistas como cliente-mistério em automóveis (ia até aos concessionários simular a compra de um carro com o objectivo de avaliar o vendedor), o que facilitou muito a coisa.

Lá estava o meu carro, um Smart com 3 anos e 8.000km, um mimo para uma estudante que trabalhava em part-time. Foi ele que me acompanhou numa das fases mais complicadas da minha vida, foi nele que tantas vezes conduzi até à praia só para ver o mar e acalmar a alma em horas turbulentas, foi nele que durante 3 anos de universidade fiz 100km diários. Cada vez que penso no meu Smart lembro-me dos princípios da minha família: eu, o Bruno e o nosso primeiro cão. E fomos tão incrivelmente felizes com ele.

O danado nunca avariou, nunca pediu peças novas, excepto revisão e gasóleo. Nem quando fizemos a viagem para Portugal de avião e voltamos a conduzi-lo até ao Luxemburgo, ele nos deixou ficar mal. Era ver o meu FO (todos os meus carros têm nome, que é composto com/por as letras da matricula) no alto dos seus 80km/h em subidas íngremes e ver valentes carrões avariados na berma. Fomos felizes, muito felizes. Tão felizes que não o consegui vender e quebrar a relação que tinha com ele. 

Quando cá cheguei trabalhava em vários sítios, o que fazia com que eu ficasse muitas vezes dentro do carro a fazer tempo entre trabalhos. Ora, por muito que eu adorasse o meu carro, não há forma de ficar 2horas dentro de um Smart com -10C no exterior. Desgostosa, acabei por dar o carro ao meu pai para carro secundário e ao longo destes anos fui aproveitando para dar umas voltinhas nele. 

Nas últimas semanas fiquei a saber que o meu pai vai comprar outro carro e já não precisa do meu FO; claro está que lhe pedi para ficar com ele outra vez. Tenho outro carro evidentemente, mais recente, melhor e mais potente mas não há amor como o primeiro: estou seriamente a pensar vender o meu carro actual para voltar ao meu bolinhas. Talvez venda, ou talvez o deixe ficar na garagem durante os meses só para ter a certeza que o Smart ainda está fino para as curvas. 

Tenho agora um marido em estado de pânico, a dizer que eu sou maluca, que o FO está a cair de podre (não está!), que tem mais quilómetros que um táxi em fim de vida e que se quero realmente um Smart para comprar um novo mas eu não quero um novo. Quero o meu carro que não vale "duas coroas de Rei" carregadinho de pêlo do Mike (pêlo tramado que entrou na alcatifa e nunca de lá há-de sair por mais que seja aspirado), quero o carro com o autocolante que diz "Mike on bord" no vidro da porta do passageiro e "Camila on bord" na mala, quero o meu carro que me fez atravessar a Europa, que fez viagens com 4 pessoas lá dentro (shiuuu!), quero o carro que em 8 anos já passou pelas minhas mãos, pelas do meu pai, do Bruno e do pai dele porque a vida dá muitas. Não quero nunca esquecer que existem poucas coisas tão valiosas como as nossas memórias. 

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