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Blog da Margarida

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02
Nov17

Os meus óculos de sol

Eu era a pessoa dos óculos de sol: Verão e Inverno, com sol ou nevoeiro - para a verdade ser dita, só não os usava em dias de chuva. Entrava em casa e pousava-os ao lado das chaves porque na próxima saída, iria pegar novamente nos essenciais: chave de casa, chave do carro e óculos de sol.

Tinha sempre a resposta pronta quando me gozavam por usa-los de Inverno, ao que eu perguntava se se chamavam óculos de sol ou óculos de calor. 

Era um dos meus pequenos hábitos que mais prazer me davam, que me identificavam e dos qual secretamente me sentia orgulhosa. Há quem se sinta mais "poderosa" depois de ir ao cabeleireiro, ou com as unhas arranjadas, ou com maquilhagem; eu só precisava daquele acessório, e nem tinha nada a ver com marcas ou preços (serviam uns quaisquer, desde que os achasse bonitos).

Tentei trazer este hábito comigo quando emigrei, mas desisti. Os dias de sol são poucos e o sol é pouco intenso, logo, que o que acontecia a cada par que comprava, é que se iam estragando no fundo da bolsa no meio das chaves e das canetas perdidas. 

Foi algo tão gradual e tão inconsciente que nem tinha percebido o que acima vos escrevi até na semana passada ter estado em Portugal para festejar o meu aniversário, e num passeio com os amigos, vi que todos estavam de óculos de sol menos eu.

O meu primeiro pensamento foi: "Que tonta! Realmente está sol, vou já buscar os meus aos saco!", mas não havia nada no saco e naquele momento, não senti nada mais do que vontade de chorar.

Não por a porcaria dos óculos, mas por aquela metáfora tão ridiculamente perfeita sobre a minha vida. Eu que já não sou eu, ou quem eu era. Que era mais feliz quando usava os meus óculos todos os dias, mesmo quando os comprava na feira do que agora que posso comprar uns Stella McCartney ou uns Miu Miu mas que não lhes dou utilidade. 

Quase como aqueles obesos que dizem que nunca tinham percebido a sua real situação até verem uma foto sua tirada por terceiros, acho que ali, eu levei um valente choque da vida. Não se trata do objecto mas da felicidade nele implícita. 

Se nunca tinham ouvido falar em ninguém que pensasse em virar a sua vida de pernas para o ar, e que começasse a preparar essa mudança por causa de uns óculos de sol: muito prazer, sou a Margarida.

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