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Blog da Margarida

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02
Nov16

Países desenvolvidos (até certo ponto)

Temos uma política de reciclagem no laboratório e por isso todos fazemos separação de lixo. Em alguns escritórios temos caixas de cartão que vieram em alguma encomenda com um tamanho assim-para-o-jeitosinho e que reutilizamos para separar o papel.

Ora, há coisa de um mês ou dois foi contratada uma nova empresa de limpezas, e as senhoras que começaram a limpar deitavam fora essas caixas de papel. Não sendo nada grave, achamos que deixar uma nota nas mesmas ia resolver o assunto. Começamos por escrever nas laterais para apenas esvaziar ao papel em vez de deitar tudo fora. Inicialmente deixamos a nota em luxemburguês, depois em francês, até ao inglês e finalmente português. Nada feito, a senhora continuava a deitar as caixas todas fora sempre que ia limpar. 

Como não arranjamos caixas com a mesma rapidez que a senhora as fazia desaparecer, decidimos ligar para a empresa e pedir se faziam o favor de dar o recado directamente à pessoa. Responderam que a senhora se despediu esta semana, e pediram desculpa mas ela não sabia ler. POW! Senti um soco no meu estômago.

Já me tinha cruzado com a senhora, não era muito mais velha que eu, teria entre 30 e 35 anos. Nunca dizia mais do que "Bonsoir" mas sempre com um sorriso simpático e educado. Não sei ao certo a nacionalidade dela, mas creio ter ouvido que era cabo-verdiana.

Eu sei que analfabetização existe (cada vez menos, felizmente) mas nunca a tinha visto assim tão perto em alguém tão jovem. Até a minha avó que teria agora 96 anos, apesar de nunca ter aprendido a escrever, sabia ler. 

Lembrei-me de quando aqui cheguei, sem saber falar nenhuma das línguas. E depois imaginei como será mudar para um país onde se fala mal a língua oficial e ainda por cima não se sabe ler. Acontece-me de ir às compras e muitas vezes pegar no telemóvel para traduzir se o champô é para cabelos oleosos ou para cabelos secos, se a farinha é com fermento ou sem fermento, distinguir diferentes tipos de peixe que já vem embalados congelados, ou outra coisa qualquer. Mesmo sabendo que é uma questão de tempo até perceber aquelas palavras, mesmo com um tradutor ali no bolso, mesmo precisando de apenas uns segundos para ter a minha resposta, não imaginam o frustrante que isso é. 

Como é que alguém não sabe ler nos dias de hoje, em países tão evoluídos como os nossos e ninguém faz nada para resolver isso? Em países onde a reciclagem é tão importante que perdemos o nosso tempo a separar o lixo, mas não fazemos nada para ajudar alguém que não sabe ler? 

 

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