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Blog da Margarida

Blog da Margarida

03
Abr17

Pessoas invisíveis

Geralmente as compras lá para casa são feitas na minhas pausas de almoço. Trabalho no centro da capital, e como tenho todos os supermercados perto, isso permite-me sair, fazer as compras, voltar e ainda almoçar no espaço de tempo um hora. 

À coisa de meses, começaram a aparecer umas pessoas no parque subterrâneo de um dos supermercados a pedir dinheiro. Os típicos pedintes: muito mau aspecto, mulheres com lenços na cabeça, homens com barba até mais não com ar de quem não toma banho à vários dias.

Como é tão mas tão raro estas situações aqui por estas terras, na primeira vez que vi, perguntei ao rapaz (que devia ter a minha idade) se precisava de alguma coisa. Respondeu-me que tinha fome. Sem grandes julgamentos e por achar que não se nega comida a ninguém, trouxe-lhe umas baguetes, bolachas e iogurtes. Na semana seguinte estava lá de novo, desta vez com um copinho a pedir dinheiro.

Entretanto já assisti a a discussões de (supostos) casais numa língua que não consegui identificar, ambos a pedir dinheiro. Já vi vários homens sentados no chão mesmo ao lado na porta de entrada do supermercado, às vezes sozinhos, outras vezes com cães. Hoje estava novamente um homem com uma barba de meses, encostado a um pilar com um copinho de café de plástico na mão, sem se mexer nem falar com quem passava. 

Fiquei bastante incomodada com a situação, pelo mau aspecto dele e porque se ele decidisse roubar-me eu não teria como me defender, para mais não estava mais ninguém no parque de estacionamento: é por isso que vou a essa hora às compras, por não estar lá quase ninguém. A primeira coisa que me passou pela cabeça foi ir falar directamente sobre o assunto na recepção: é uma situação chata, que dá mau aspecto ao supermercado, que incomoda clientes, e fiquei com muita pouca vontade de lá voltar. Por outro lado, é claro que a gerência sabe que eles lá estão - não são invisíveis por muito que queiramos fazer de conta que não os vemos. Acredito que mais gente se tenha queixado, mas se é uma situação que se arrasta à meses, e ninguém faz nada, suponho que não actuem porque não querem. Aliás, se eu me sinto incomodada, tenho sempre a opção de não voltar lá a pôr os pés, certo? 

Acabei por não dizer nada, e ao vir embora já com as compras feitas, fiquei a pensar o que leva alguém aquela situação. Pobreza extrema não será, porque neste país todas as ajudas são dadas para que toda a gente tenha uma vida aceitável. Imigração ilegal? Tráfico de pessoas? Pessoas forçadas a pedir para lucro de outras? Nenhuma delas me pareceu até hoje alcoolizada ou sob o efeito de drogas. Se uma parte de mim me faz repudiar aquelas pessoas que passam ali o dia a pedir em vez de como todos nós, arranjarem um trabalho e uma casa, outra parte fez-me pensar que não me cabe a mim julgar, só eles sabem que histórias os trouxeram até ali. 

Então, o que fazer? Falar com o supermercado para que tomem uma atitude? Parar de me meter em assuntos que não são meus, tendo sempre a opção de não voltar lá? Será que aquelas pessoas precisam de ajuda social, policial? Ou será que não querem mudar nem ser ajudados?

Nenhum animal neste país é deixado na rua, não existem animais abandonados porque toda uma população se insurge, ajuda e resolve pelos direitos e bem-estar dos animais. Mas ali estão pessoas, e não animais, e parece que ninguém os vê.