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Blog da Margarida

Blog da Margarida

16
Jan17

Questões existenciais e geográficas

"Se por magia o mundo parasse no dia de hoje, e todos os dias fossem iguais a este, os meses iguais a este para sempre, serias feliz?". A maior parte dos dias sim, alguns definitivamente não, e outros talvez. Isto de sairmos do nosso país tem que se lhe diga

Nunca em momento algum me arrependi de ter saído, mas por vezes acho que teria sido mais fácil se não o tivesse feito, e digo fácil no sentido em que nunca nos faz falta aquilo que não conhecemos. Naqueles dias em que nos tocam as questões existenciais, pensamos muitos vezes: o que estamos aqui a fazer? Longe dos amigos, da família, do nosso país. Viemos porque estávamos zangados (na altura achei que era com todo o país, mais tarde percebi que era apenas com os patrões e com a situação em geral), porque queríamos novas experiências, ver novos mundos e não tínhamos nada a perder. Chego a pensar se não roça o egoísmo deixar os pais a envelhecer tão longe, os sobrinhos a crescer, sem aproveitar o tempo com eles. 

Por outro lado, como é possível voltar a um país onde se ganha 500€ e num mês em que tenha de se desvitalizar um dente, ficamos sem dinheiro para comer até ao próximo salário? Quem diz um dente, diz trocar os pneus do carro, ou o seguro, ou mudar de óculos. Como voltar a um país onde é normal não receber horas extras, sendo que é de "bom tom" o empregado ficar até ao fecho, e se este se recusar é o pior empregado de sempre? Como voltar para um país onde vejo familiares que começaram a trabalhar com 12 anos para se reformarem aos 67, e nessa altura já têm uma saúde tão débil que não lhes permite aproveitar a reforma? A vida deles foi trabalhar e pagar contas?

Não, não estou zangada com o meu país mas pondo os "pontos nos i's", não me sentiria capaz de voltar a Portugal porque sei que é possível viver de outra maneira. Lugares perfeitos não existem, e aqui onde temos outras condições sociais falta o sol que tanto alegra, o convívio, as festas. Vivo com um dos melhores sistemas nacionais de saúde do mundo, mas onde há também um número crítico de pessoas com depressão.

"Se por magia o mundo parasse no dia de hoje, e todos os dias fossem iguais a este, os meses iguais a este para sempre, serias feliz?". Talvez sim, talvez não. Não custa pesquisar mais portas abertas, se há países mais perto de ser aquilo que idealizamos. Afinal, o mundo é tão grande para passar a vida toda no mesmo sítio.  O único compromisso que temos é um com o outro e com os nossos animais. Hoje estamos aqui, amanhã poderíamos estar na Nova Zelândia, ou África do Sul, ou Canadá,. Esta "facilidade" (que de fácil tem muito pouco) de virar a página e partir, diz-nos livres. Os que ficaram no país onde nasceram continuam a achar que vivem no melhor sítio do mundo. Eu sai, viajei, vi e aprendi,e continuo perdida à procura de melhor - tenho cá comigo que se o encontrar, irei mais tarde ou mais cedo procurar outro ainda melhor.

Tive a sorte de nascer num país maravilhoso onde todos somos livres de ficar ou partir, o que não tinha percebido até aqui era que a liberdade trás consigo uma mala grande cheia de outras coisas; quando chegamos à realização, aparece a insatisfação e a curiosidade contínua de ver mais além. 

"Se por magia o mundo parasse no dia de hoje, e todos os dias fossem iguais a este, os meses iguais a este para sempre, serias feliz?". Não sei. Se algo me diz que não vou parar de espreitar horizontes, também me faz pensar se esta procura constante de mudança não me fará daqui a muitos anos olhar para trás e perceber que andei sempre a correr atrás de algo que não existe em vez de aproveitar verdadeiramente aquilo que tinha. 

 

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