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Blog da Margarida

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16
Mar17

A racionalidade nos sonhos

A última vez que falei sobre o Mike neste blog, foi 10 meses depois dele ter partido quando fiz o post em que expliquei a sua morte. Ainda estava muito zangada na altura, e despejava toda a minha revolta nos criadores que criam cães sem fazer a mínima ideia do que estão a fazer, sem exames de saúde ou controlo algum. Hoje vejo que foi uma estupidez, que tanto valia vir de um mau criador, de um bom criador, de um canil ou da rua, porque isso nunca fez diferença para mim e não teria feito nada diferente - simplesmente precisava de culpar alguém. 

Quem chegou mais tarde ao blog, se pesquisar ali na barra direita pela palavra Mike, fica a conhecer o que foi o cão da minha vida, foi o meu grande companheiro numa fase bastante complicada, vivemos um para o outro, pesou em várias decisões que tomei até hoje: até o meu relatório final de curso teve o tema "Geriatria em animais de companhia: Principais patologias e o trabalho do Enfermeiro Veterinário", porque queria estar preparada para acompanhar o meu fiel companheiro quando a velhice chegasse. Aliás, a dedicatória do meu trabalho final da licenciatura foi esta:

 

"Dedicatória:

Este trabalho é dedicado ao meu cão, Mike. Por todo o apoio, companhia e incrível dedicação em todos os momentos. Espero estar a altura de retribuir tamanha amizade e lealdade.

 

Quando eu mais precisei de uma mão para segurar, o que se estendeu foi uma pata.

(Autor desconhecido)"

 

O Mike deu o seu lugar à Camila, que é a cadela mais amorosa do universo, a cadela perfeita para meio mundo mas que veio ocupar um lugar difícil de preencher, e que me levou demasiado tempo a fazer-me apaixonar por ela também, porque de uma forma estúpida e totalmente inconsciente eu estava à espera que ela fosse o Mike, com as mesmas reacções, com os mesmos gostos e as mesmas histórias. Não só não é parecida, como não podia ser mais diferente e veio também com a sua forma de ser, dar-me ensinamentos preciosos para a vida. 

Hoje, quase 4 anos depois, vejo como o Mike me mudou. Ele foi para mim um filho, e eu sei melhor do que ninguém que um cão não é um filho, que nunca se compara um cão a uma criança, que não se devem personificar os animais e blábláblá wiskas saquetas. Um grande foda-se para o politicamente correcto porque só eu sei o que senti - o Mike foi o meu primeiro filho, e a sua morte mudou-me até ao meu último recanto. 

Mudou a forma como me apego aos meus animais, e ainda que lhes tenha um amor que nem consigo descrever, hoje olho para todos eles como animais que são (ainda que parte fundamental da família) mas creio que nunca mais voltarei a cair na asneira de misturar amor de dona com sentimentos maternos. 

Deu-me a conhecer a fragilidade e a incerteza da vida, independentemente das nossas acções.

Acho que também levou com ele a pouca vontade que eu tinha de ter filhos, porque se perder um cão foi o Inferno que foi, em que só consegui recuperar com ajuda médica, acho que não tenho "arcabouço" suficiente para pôr um filho neste mundo horrível e perverso em que tudo pode acontecer.

Contudo, há uns dias atrás a minha chefe perdeu o seu cavalo que tinha a bela idade de 23 anos. Em forma de consolo, disse-lhe que a morte do meu cão foi o pior que me aconteceu na vida e que eu ultrapassei - ultrapassamos sempre. Contei-lhe como fiz tudo o que pude e tenho a consciência tranquila. Contei-lhe também como demos o último dia mais feliz de sempre ao Mike que incluiu os donos só para ele, passeios na praia e ir comer ao McDonald's (afinal não eram os hambúrgueres e as batatas fritas que o iam matar, não é?).Ele partiu feliz e hoje já só lhe recordo apenas as coisas boas e o agradecimento por ter feito parte da minha vida. Ela respondeu-me que (nós as duas) devíamos ser pessoas muito felizes, já que o pior que nos aconteceu na vida foi perder um animal. Eu sei que sim, e sou imensamente grata por isso.

Ainda assim, aquele cão mudou a minha vida, mudou-me a mim e de todas as mudanças que ele trouxe, a única que ainda hoje me incomoda é a incapacidade de sonhar. Foram tantas mas tantas as vezes que sonhei com ele, em que o sentia em casa, ou que sonhava que ele estava só perdido ou que tinha sido roubado e que ia voltar, que desenvolvi uma defesa natural: Não consigo sonhar com coisas irreais. Dentro dos meus sonhos, paro um momento para pensar e chego à conclusão que estou de facto a sonhar. Ou seja, se estou a sonhar que o Mike vai voltar, rápidamente me lembro que ele morreu e não vai voltar; se sonho que tenho filhos, ainda dentro do meu sonho percebo que aquilo não pode ser verdade então estou de facto a sonhar; se estou numa vida que não a minha, penso que nunca iria para lado nenhum sem o meu marido, então só poderei estar dentro de um sonho. Complicado, não? Tornei-me demasiado racional até para sonhar, e não sei se fico triste por isso, ou se por outro lado guardo com carinho esta marca que ele deixou em mim. 

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